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CREDO

Poster_Rua

 
Data de Estreia — Junho de 2011
Local — Fábrica da Rua da Alegria
Classificação Etária — M/12
Texto — Enzo Cornmann
Encenação e Interpretação — Cecília Ferreira, Isabel Carvalho, Joana Magalhães
Cenografia — Carina Gaspar
Design de Luz — Pedro Nabais
Design de Som — Filipe Ribeiro
Figurinos — Teatro a Quatro
Produção — Teatro a Quatro
Fotografia — Bárbara Espírito Santo
Design de Comunicação — Franck de Almeida

Credo

Por vezes, digo frases em que não pensei verdadeiramente. E é uma outra que fala, e não sei quem. Ela murmura palavras ao contrário, coisas que não têm sombra; ela é um pouco o seu sol. E é também a lua, a noite, que as embala. Há tantas coisas sem vida. Essas frases, muitas vezes, não as compreendo mas sei que a verdade é sempre difícil. In CREDO, Enzo Cormann

 

A peça Credo de Enzo Cormann é uma poética e tocante dissertação sobre a solidão e a perda, que nos mergulha no imaginário de uma mulher que se esforça por assassinar o seu isolamento quotidiano. O espectáculo que oferecemos ao nosso público em jeito de exercício é, mais do que a “coisificação” de um texto dramático hermético e erudito, um olhar sobre a peça do autor. Haverá outros, muitos outros olhares, igualmente possíveis, senão o que seria das infindáveis encenações e versões do Hamlet, do Rei Édipo e textos afins?

Enquanto companhia de teatro, em palco, tentamos legitimar as nossas opções dramatúrgicas e interpretativas, sendo fiéis aos próprios princípios de Cormann, que defende, na sua comunicação no colóquio “La crise de la représentation”, de Fevereiro de 2007, na École Nationale Supérieure des Sciences de l’Information et des Bibliothèques, intitulada Crise de la représentation / Représentation de la crise – 9 notes pour un théâtre de
crise, que “a representação se inventa, se efectua e passa como uma experiência, precisamente, e não como uma obra.”

É exactamente isso que pretende ser o nosso exercício: uma experiência (interpretativa e dramatúrgica). Note-se que ao optarmos por um monólogo para três actrizes, tivemos, necessariamente, de reestruturar o texto, de o reinventar e de o dotar de uma significação mais comunicante, sem, contudo, lhe retirarmos a poesia de que vive.

Sem nunca deixarmos de comunicar com o texto do autor, não nos deixámos limitar por ele, abrindo novas possibilidades de entendimento e de novos sentidos dramatúrgicos – interessava-nos que o texto dialogasse connosco, com o público, com a contemporaneidade e com o porvir. Não estávamos interessados em ser fiéis a didascálias (que por sinal são
bastante minuciosas), não nos interessava começar na primeira página do texto e acabar na última. Através de uma espécie de construção de puzzle, e porque o Teatro é essencialmente jogo, presentificámos o aqui e o agora de uma composição escrita, não nos cingindo ao rasto de Cormann, mas instalando o autor no nosso tempo e no nosso espaço.

Como Enzo Cormann afirma, a encenação “não é uma novidade, mas precisamos de a reinventar, de cada vez entrar em cena de novo. De cada vez nos re-presentarmos de novo.”

Em suma, não nos fixámos univocamente numa identidade autoral, antes a olhámos, com vontade de ver e sentir tudo o que lá estava e o que nós lhe acrescentámos. Muito. Assim como as personagens de Cormann “o vêem viver” e aquilo que ele propõe, em definitivo para elas, “são olhares e não identidades”, nós demorámos o nosso olhar sobre a sua peça
Credo para oferecer novos olhares ao público. Talvez se cruzem com identidades…